A tipologia
(classificação) dos múltiplos formatos de criminalidade organizada existente no
Brasil atual é, muito provavelmente, inabarcável. Dentre todas as formas do
crime organizado, três nos chamam a atenção: o crime organizado dos poderes
privados (P2), o crime organizado empresarial-estatal (que teria o formato P6)
e o crime organizado cleptocrata (dos poderosos, dos que governam a nação, para
a preservação do poder econômico, financeiro e político – P8).
Se
considerarmos o PCC (Primeiro Comando da Capital), o escândalo do Carf
(corrupção promovida por grandes empresas para a sonegação de impostos) e o
escândalo da Petrobrás (corrupção entre os poderosos para a pilhagem do
patrimônio público e manutenção do poder político), com toda clareza podemos
distinguir três modelos de criminalidade organizada. O primeiro se caracteriza
como um crime organizado P2 porque comandado por poderes privados, ainda que
conte com conexões com o poder público. A criminalidade organizada dos poderes
privados (P2, como PCC, CV etc.) não chega a construir uma “parceria” ilícita
com as hierarquias dominantes do poder público, ou seja, conta com o apoio de
agentes públicos (normalmente policiais, agentes penitenciários etc.), mas não
alcança suas estruturas cardeais. De outro lado, é o poder privado que mantém o
domínio da organização criminosa sempre; seu poder de transversalidade dentro
do Estado é diminuto e seu método de atuação inclui a violência ou ameaça como
regra.
No crime organizado
empresarial-estatal (tal como nos mostra o cenário do Carf) dá-se o seguinte: é
uma parceria público-privada para a pilhagem do patrimônio público (P6), sem
entrar em jogo a preservação ou conquista do poder político ou econômico.
Tampouco fazem uso da violência. Incontáveis e poderosas empresas (Grupo
Gerdau, Banco Safra e Hyundai/Caoa, citados pelo O Globo: 27/3/15; Bradesco,
Santander, BTG Pactual, Bank Boston, Ford, Mitsubishi, BR Foods, Petrobrás,
Camargo Corrêa, Light, Grupo RBS, Embraer, Coopersucar, Cervejaria Petrópolis,
Évora, Marcopolo, Nardini Agroindustrial, Ometto, Viação Vale do Ribeira, Via
Concessões, Dascan, Holdenn, Kaneko Silk, Cimento Penha e CF Prestadora de
Serviços mencionados pelo Estadão: 28/3/15) teriam gerado desfalque de R$ 19
bilhões de reais ao fisco (o que equivale a duas vezes a estimativa mais
pessimista para o escândalo da Petrobras).
Neste último
escândalo (tanto quanto nos mensalões do PT e do PSDB), estamos diante de uma
criminalidade organizada P8 (Parceria Público-Privada entre Poderosos para a
Pilhagem do Patrimônio e do Poder Públicos), porque envolve a conquista ou
preservação do poder político, econômico e financeiro. Trata-se de um crime
organizado cleptocrata porque envolve os que governam o país (os que mandam no
poder e no Estado). No caso Petrobras a organização criminosa se estruturou
sobre quatro pilares (administrativo, político, financeiro e econômico). Pela
primeira vez no Brasil institucionalizou-se o uso do dinheiro público para a
preservação do grupo hegemônico atual (PT, PMDB, PP etc.) no poder. Pelo que
indicam os primeiros indícios, deu-se a mesma coisa (em proporção menor, no
entanto) nos casos do trensalão e do metrôSP(ou seja, o dinheiro da corrupção
também teria servido para a preservação do PSDB no comando do poder político).
Sob o formato P2, P6 ou P8, o certo é que o crime organizado tomou conta do
país. É preciso que o Poder Jurídico de controle atue fortemente, pois do
contrário os ladrões cleptocratas (sobretudo) não nos deixarão sair do
subdesenvolvimento jamais.
Você acha
que o Direito Penal tem muitas teorias e entendimentos? Difícil resolver
questões de concursos e aplicar na prática profissional? Veja este vídeo.
Luiz Flávio
Gomes
Adv. Professor

Nenhum comentário:
Postar um comentário